No último final de semana, participei no município gaúcho de Santa Cruz do Sul da "2ª Festa e Feira da Agricultura Camponesa", um evento organizado pelo MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) que reuniu um grande número de camponeses de todo o Estado do Rio Grande do Sul. Debaixo de um calor insuportável, me deparei com um grupo de agricultores organizados e preocupados com o futuro da agricultura em nosso país. Na “Capital do Fumo” pude ver de perto o drama da seca que atinge a maioria dos municípios gaúchos neste verão de 2012. Lavouras comprometidas e açudes praticamente secos, constituem uma paisagem desalentadora, prevendo que o ano que recém iniciou deverá ser duro para um grande número de gaúchos.
O bom desses encontros, é que além do conhecimento adquirido, a troca de experiências e as novas amizades são uma constante, como as que fiz com os fumicultores do Vale do Taquari, que enfrentam o mesmo drama vivido pelos produtores de tabaco da nossa região: a falta de incentivos por parte do Governo, associada a exploração "sem dó nem piedade" das empresas fumageiras na hora da venda, estão deixando o fumicultor num beco sem saída, com sérias dificuldades para encontrar outra cultura que se viabilize em pequenas áreas de terra, esse que durante décadas, foi o grande diferencial da fumicultura em relação as outras culturas.
Durante a feira, presenciamos o artesanato indígena e produtos orgânicos das mais variadas formas e espécies, que tentam se estabelecer num mundo ainda voltado e estruturado para a agricultura convencional, fundamentada a base da aplicação de venenos e da adubação química. Até um herbicida ecológico eu encontrei por lá, produto que se confirmar o resultado prometido, deverá substituir o tradicional “Glifosato”, o herbicida mais utilizado em nosso país, principalmente após a proliferação das sementes transgênicas.
Para combater o desequilíbrio ambiental e garantir soberania aos agricultores no domínio sobre a tecnologia da produção de sementes, o MPA tem investido fortemente na divulgação e distribuição de sementes crioulas. Cerca de 180 toneladas destas sementes já estão plantadas em vários estados brasileiros, sendo que várias bolsas estão sendo testadas no município de Mampituba e já deverão ser colhidas nos próximos meses.
Eu que tanto ocupei este espaço nas últimas semanas para escrever sobre a relação da juventude com as drogas, acabei me deparando em Santa Cruz do Sul com o “Levante Popular da Juventude”, um evento paralelo a festa, que reuniu cerca de 1200 jovens de todo o Brasil. Foi muito bom, após muitos anos, presenciar novamente um grupo de moços e moças que se reúnem para falar sobre questões sociais, meio ambiente, resgate da cultura e luta contra todos os preconceitos. Mas nem por isso, eles deixam de fazer festa e se divertirem com responsabilidade, como aconteceu no grande show de sábado a noite, que levou ao palco as mais variadas expressões musicais, representando em Santa Cruz a riqueza cultural de nosso país, que por sinal não existe igual em nenhum outro lugar do mundo.
Coluna publicada na edição do dia 10 de fevereiro de 2012